sexta-feira, 16 de abril de 2021

Por amor ao Cristianismo ou por amor a Cristo?

 Estas duas semanas vivemos no Brasil mais um episódio grotesco protagonizado diretamente no Supremo Tribunal e muitos chamaram de "A Igreja no Banco dos Réus". A situação por si só já se mostra ridícula, uma vez que o julgamento não envolvia as Igrejas Evangélicas, Católicas ou o Cristianismo simplesmente, mas evitar que qualquer grupo religioso se reunisse, gerando aglomerações e transmissão do vírus, ou seja, nenhum grupo, de qualquer religião, poderia se reunir, no entanto, alguns grupos evangélicos, tentaram transformar isto em um cavalo de batalha sem o menor sentido. Nenhuma Igreja esteve no Banco dos Réus, o que foi julgado era a obediência a um princípio estabelecido em qualquer religião, o respeito e a preservação à vida, e que tal atitude deveria, no mínimo ser um bom senso, presente na vida de qualquer líder religioso.

Como se não bastasse tal infâmia, ainda aconteceu um discurso cheio de preconceitos de intolerância e completamente equivocado do Advogado Geral da União, onde parece não entender princípios que fazem parte do Evangelho. Um dos trechos que chamou a minha atenção e vários líderes evangélicos republicaram numa atitude que beira o vitimismo foi esta "..."NÃO há Cristianismo sem vida comunitária, NÃO há Cristianismo sem a Casa de Deus, NÃO há Cristianismo sem dia do Senhor, é por isso que os verdadeiros cristãos não estão dispostos jamais a matar por sua fé, mas estão sempre dispostos a morrer para garantir a liberdade de religião e culto."... (André Mendonça - Adv. Geral da União do Brasil)

O primeiro engano é supervalorizar o Cristianismo. Jesus nunca fundou nenhum sistema religioso, Jesus nunca fundou nenhuma religião. Em Atos 11.26, temos que na cidade de Antioquia aqueles que seguiam a Jesus foram chamados de cristãos, que significa "aqueles que pertencem a Cristo". Portanto, vida comunitária é uma consequência de pertencera Cristo, na Igreja Primitiva a comunhão existia pelo sentimento de pertencer e professar a Cristo e não por serem cristãos.

O segundo engano está no fato de que a Igreja primitiva se reunia em casas e não no templo. As igrejas enquanto Corpo não estavam atreladas à necessidade de um lugar para reunião. A pandemia ensinou que a Igreja somos cada um de nós e que não dependemos do templo para adoração, esta pode ser feita em nossas casas. A pregação do Evangelho não se resume a templos e a vida comunitária é alcançada de diversas formas. Tive a experiência de usar meu Whatsapp para orar por algumas pessoas e para todas este gesto fez alguma diferença. Em muitos templos não existe vida comunitária, pois uma Igreja que tem vários cultos por dia, as pessoas entram e saem sem se conhecerem, sem relacionamento, em se importarem umas com as outras é sinal claro que não há vida comunitária.

O mais complicado foi dizer que verdadeiros cristãos estão dispostos a morrer para garantir sua liberdade de culto. Em que Bíblia este moço leu isto? Em que que Bíblia deu base para que ele chegasse a esta conclusão? Os cristãos do novo testamento morriam por amor a Cristo e ao Evangelho. Jesus várias vezes falou que aqueles que escolhessem segui-lo e ser semelhante a Ele, seriam perseguidos e mortos. Mateus 5.11 e 12, Jesus fala que bem aventurados são aqueles insultados, caluniados, perseguidos por amor a Ele e não pela liberdade de culto.

Sinceramente, se é para ser perseguido, caluniado, injuriado e até morto, que seja por amor a Cristo. O Cristianismo não salva ninguém, o Cristianismo não é modelo de vida para ninguém, o Cristianismo não transforma ninguém, quem faz isto é Jesus, o poder transformador está no Evangelho, foi na Cruz que Jesus morreu para a nossa salvação, É em Jesus que as promessas de Deus se cumprem. 

Quem está disposto a morrer pela liberdade de culto, não está disposto a morrer por amor a Cristo.

Cleber Trancozo - Pastor, Psicólogo e Educador 



terça-feira, 13 de abril de 2021

A Igreja Cristã e a Cultura do Ódio

Ultimamente tenho sido surpreendido por várias publicações onde vemos a proliferação da cultura do ódio. Mas é justamente, no lugar onde esta cultura deveria ser combatida, que parece ser onde ela mais tem proliferado. A falta de respeito, o discurso preconceituoso baseado em achismos e sem fundamentos, a preguiça de investigar e de buscar fundamentos, que por sinal, parece ser uma marca que acompanha a Igreja Cristã desde a Idade Média, contrariando os ensinamentos questionadores de Jesus, mostra-se presente principalmente quando vemos as redes sociais de pessoas que se autodenominam cristãos.

A Cultura do ódio propaga-se em alta velocidade à medida em que nossa sociedade torna-se polarizada e a Igreja cada vez mais politizada e próxima do poder. Parece que estamos retornando ao que a humanidade viveu na Idade Média, onde aqueles que pensam, agem, creem de forma diferente são inimigos e merecem a morte e o desprezo. São párias em uma sociedade que só cabe uma única forma de pensar e o diferente deve ser execrado.

Fica claro que tal projeto político-religioso vai na contramão da Bíblia, que por sinal, deveria ser a regra de fé e prática de todos os que se chamam seguidores de Cristo. Quando penso que Bíblia é quem deve nortear ações e atitudes percebe-se que ela retira todo espaço da cultura do ódio, para em seu lugar instalar e fortalecer a cultura do amor.

Considero o Sermão de Monte como o "Código de Ética" ensinado por Jesus. No Capítulo 5 de 21 a 28, Jesus mostra que o matar não está somente no ato, mas que o fato de irar e pensar em matar já é homicídio e que antes de entregar a oferta é preciso estar bem com todos. De 38 a 42 Jesus mostra que antes de pensar em vingança é preciso compreender a capacidade maravilhosa da reconciliação e do acordo. De 43 a 48 Jesus ensina a amar aqueles que são chamados de inimigos, pois amar quem ajuda é fácil, difícil é ajudar e amar quem persegue. Enfim, Jesus mostra que no relacionamento entre os seres humanos não deve existir a cultura do ódio e sim a cultura do amor.

Nestes tempos de Pandemia, desenvolver a cultura do amor é uma necessidade. Não há espaço para a cultura do ódio na Igreja. Se a Igreja não é um lugar de acolhimento, de tolerância, de equilíbrio, o Evangelho ainda não tomou lugar nesta Igreja. 

É tempo de dar fim à cultura do ódio

Cleber Trancozo - Pastor, Psicólogo, Educador.